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domingo, 23 de março de 2014

UMA COLEÇÃO IMPERDÍVEL PARA QUEM GOSTA DOS CONTOS

08.CapaAverrosPq_publicar_ebook     08.CapaPenelope_publicar_ebook    08.CapaLigia_publicar_ebook    08.CapaUmaNoMercadoPq_publicar_ebook 

08.CapaXodoPq_publicar_ebook    08.CapaNaoVouFalar_publicar_ebook    08.CapaMiguelSanchesNeto_publicar_ebook


Serei breve, porque esse é o espírito da coleção. 

A caminhada começou com Averrós, de José Luiz Passos, que narra um diálogo curto (poucos minutos) entre o protagonista e um morador de rua. A conversa é só aparentemente inocente - e o mendigo sabe bem mais do que se imagina. Passamos em seguida por Penélope, escrito por André de Leones, trama que reúne uma atriz e um produtor de filmes pornográficos. Ela cuida da avó, que tem problemas de memória. Ele acabou de sair da prisão. E eles têm, os dois, medo do futuro, de que tudo dê errado. De novo. No terceiro volume - Lígia -, Victor Heringer joga luzes sobre Alex, um sujeito de barba espessa e cabelo curto, responsável por cuidar do senhor Mendes, 88 anos. O idoso insiste em chamar seu benfeitor de Lígia, o nome da esposa, já falecida. Quando Mendes morre, Alex está vestindo a calcinha e o sutiã de Lígia. Sérgio Fantini promove, em Uma no mercado, o reencontro de Sávio com uma ex-namorada, num ônibus. A conversa avança para mãos no ombro, carinhos mais ousados, outros toques e um revival que quase acontece, não fosse por uma notícia inesperada. Chegamos a Xodó, de Marcelo Moutinho, que fala sobre Rodrigo, adolescente que gosta de se excitar sexualmente com a boneca da irmã - ela descobre, mas guarda o segredo. Primeiro pacto cúmplice de adultos. Não vou falar sobre isto, mas por exemplo, de Luci Collin, reúne recados de pessoas diferentes enviados a Fréderic. São bilhetes curtos, objetivos, que se juntam para formar um mosaico e dar o tom um tanto misterioso da narrativa. Finalmente, em Senhoras da noite, Miguel Sanches Neto trata de fotografias que não ficam boas. O equipamento é de primeira. A culpa é da luz. Até que o fotógrafo... 

Todas essas narrativas fazem parte da coleção "Formas Breves", lançada recentemente pela E-Galáxia. É uma das iniciativas literárias mais bacanas dos últimos tempos - toda semana, somos presenteados com um conto, sempre no formato digital, e por preço bastante acessível (apenas R$ 1,99). "Eu coordeno um festival de literatura só dedicado a contos e contistas, o Festival Nacional do Conto, e estudo há alguns anos os possíveis caminhos dos contos num mundo cada vez mais portátil: você tem internet, livros, filmes e músicas quando e onde quiser, com os dispositivos móveis. Então que tal uma coleção em que você pudesse, com menos de dois reais, o preço de um picolé, comprar um conto e ler em qualquer lugar? Este é o princípio da Formas Breves", explica Carlos Henrique Schroeder, coordenador da coleção. Ele garante que não importa se o autor é conhecido ou anônimo - a preocupação é com a qualidade da história. Em breve, farão parte do time escritoras como Carola Saavedra, Ivana Arruda Leite, Andrea del Fuego e Elvira Vigna. Autores internacionais também serão contemplados, "de classicões como Ambrose Bierce, Virgínia Woolf e Ruben Dário até contemporâneos como Sérgio Chejfec e Mariana Enriquez", completa Schroeder. E não faltará, ele promete, espaço para iniciantes. "Recebo em média três contos por dia, dou uma peneirada, olho tudo com muito critério".   

Em sintonia com o Nobel de Literatura, que no ano passado premiou a canadense Alice Munro, contista de mão cheia, "Formas Breves" faz um convite para um mergulho no universo de um gênero rico e apaixonante, mas que lamentavelmente não é valorizado como mereceria - ao contrário, sofre ainda com os narizes torcidos e o rótulo de 'primo pobre' do nobre romance. Erro grotesco. Como escreve Miguel Sanches Neto em artigo publicado no jornal 'Valor Econômico' da última sexta-feira, 21 de março, "o conto é linguagem que se espraia de forma tensionada. Cerca em que os arames estão muito esticados. Nada pode ficar frouxo nesses arranjos. Dizer cada coisa encaminhando o leitor para o centro pulsante da história. Um bom conto, portanto, exige muito mais controle do que o romance e a crônica. Poderíamos dizer que nele a língua se encontra bem-acabada tanto do ponto de vista plástico quanto estrutural".

Comecei a organizar minha biblioteca digital colecionando os contos de "Formas Breves". Agora, fico toda segunda-feira na expectativa de uma nova história. Vale a pena.


http://blog.e-galaxia.com.br/formas-breves/